A nova batalha da Maria Antônia

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E
se eu dissesse que João Calvino e Karl Marx saíram no braço no centro de São
Paulo em 1968? O leitor decerto me tomará por um lunático: Calvino e Marx eram
cavalheiros, jamais iriam às vias de fato no meio do asfalto – embora a
brutalidade paulistana faça os filósofos mais pacíficos perderem a cabeça. Nos
dias 2 e 3 de outubro de 1968, há exatamente 50 anos,
discípulos de um e de
outro se envolveram numa briga sangrenta ruma ruazinha paulistana, margeada por
duas universidades – foi a Batalha da Maria Antônia. De um lado da rua,
na esquina com a Rua Itambé, permanece, ainda hoje, a Universidade
Presbiteriana Mackenzie. Do outro lado, em frente ao Mackenzie, ficava a
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo
(FFCL-USP). Naquele interminável 1968, a Faculdade de Filosofia abrigava
exaltadas discussões políticas e culturais: alunos, professores e quem mais
passeasse pela Maria Antônia tentavam descobrir meios para resistir ao arbítrio
militar e superar o subdesenvolvimento brasileiro.

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Na
manhã de 2 de outubro, os uspianos pediam pedágio na rua para arrecadar
dinheiro para o XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes, aquele que
aconteceu em Ibiúna alguns dias depois e do qual centenas de estudantes saíram
presos pelas forças da ditadura. Alunos do Mackenzie ligados
ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) tentaram impedir o pedágio com
pedradas, e os uspianos revidaram com paus e pedras. No dia seguinte, a fachada
da Faculdade de Filosofia foi coberta com faixas contra o CCC, que começou um
novo ataque com rojões, coquetéis molotov e pelo menos uma arma de fogo. A
Batalha da Maria Antônia terminou com a morte do secundarista José Guimarães e
o incêndio da Faculdade de Filosofia. (Nem todos os mackenzistas eram do CCC, é
claro, um punhado deles, simpático
à esquerda, lutou ao lado dos uspianos.)

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Mesmo
antes da batalha, conviviam na Maria Antônia duas propostas
político-civilizatórias para o Brasil, que ora convergiam e ora se enfrentavam,
mas acabaram, ambas, pisoteadas pelas botas sujas dos soldados. A USP e o
Mackenzie eram (e ainda são) frutos desses dois projetos modernizantes,
liberais na origem. A Universidade Presbiteriana Mackenzie nasceu como um
colégio evangélico, fundado por missionários americanos para educar os filhos dos
crentes brasileiros e, depois, da elite católica que se encantou com a didática
dos protestantes, que valorizavam a educação física e as ciências, tão
diferente do beletrismo dos jesuítas. O objetivo dos colégios, como que o que
deu origem ao Mackenzie, era promover uma evangelização indireta das elites
brasileiros e, assim, contribuir para a modernização do país. A Maria Antônia
que deu nome à rua, aliás, pertencia a essa elite – era filha de um senador do
Império, o barão
de Antonina. Dona Maria Antônia da Silva Ramos foi uma das primeiras madames
paulistanas a se converter ao protestantismo e vendeu umas terras que possuía
ao missionário presbiteriano George Whitehill Chamberlain, que ergueu ali os
primórdios do Mackenzie.

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Junto
com a Bíblia e o catecismo calvinista, os missionários ensinavam um
evangelho liberal, com capítulos e versículos sobre livre-iniciativa, valores
democráticos, laicidade do Estado e outras doutrinas que, nos Estados Unidos, se
confundiam com
o próprio protestantismo, mas eram pouco populares nos trópicos católicos,
acostumados ao patrimonialismo e ao favor. Esse liberalismo evangélico
caminhava de mãos dadas com um paranoico anticomunismo que, em 1964, levou a
Igreja Presbiteriana do Brasil, mantenedora do Mackenzie, e as principais
igrejas evangélicas brasileiras a soltar um piedoso “aleluia, ditadura!”. Não
surpreende que o CCC tenha florescido num campus universitário cujos zeladores
eram respeitosos reverendos que confiavam em que o golpe civil-militar fora
orquestrado pelo próprio Senhor dos Exércitos para livrar o Brasil do comunismo
ateu.

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A
USP representava outro projeto liberal, modernizante e civilizatório, assentado
não na racionalidade protestante ou na intervenção divina, mas na ciência: Scientia
vinces
(Vencerás pela ciência), diz o lema da universidade. A USP foi
organizada em 1934 pela mesma elite que se revoltara contra o governo getulista
dois anos antes. São Paulo, a “locomotiva do Brasil”, precisava de uma
instituição que formasse uma elite técnica, acadêmica e política capaz de
conduzir o país nos trilhos da modernidade. Os principais artífices desse projeto
foram o governador paulista Armando de Sales
Oliveira e seu cunhado, Júlio de Mesquita Filho, proprietário d’O Estado de S. Paulo, um jornal liberal,
que defendera a República ainda nos tempos do Império. A cartilha liberal foi
aos poucos substituída por outra, mais radical, influenciada por leituras da filosofia marxista.
Desde os anos 1950, na Maria Antônia, intelectuais interrogavam exaustivamente
os tomos d’O capital à procura de saídas para o subdesenvolvimento
brasileiro. A Faculdade de Filosofia, porém, não era nem um soviete – os
professores “subversivos” foram escorraçados pelos militares logo após o golpe.
E os liberais haviam se
curvado ao autoritarismo. O Estadão, como a maioria dos jornais (e
igrejas evangélicas), saudou o sequestro da República pelos militares em 1964.
A USP forneceu alguns quadros importantes para o regime. Alfredo Buzaid, diretor
da Faculdade de Direito, foi ministro da Justiça de Emílio Garrastazu Médici. À
época da Batalha da Maria Antônia, o reitor era o jurista Luís Antônio da
Gama e Silva, redator do Ato Institucional nº 5, o AI-5.

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A
Batalha da Maria Antônia não escancara apenas a violência política daqueles
anos, mas também denuncia o fracasso dos projetos liberais brasileiros, que
caem na tentação autoritária sempre que avistam nuvens avermelhadas no
horizonte. Naquela época, as duas instituições liberais e modernizantes que
marcavam a paisagem da Maria Antônia renunciaram a qualquer projeto
democrático e abraçaram os militares. Talvez algo parecido ocorra hoje, 50 anos
depois, na corrida eleitoral. Discípulos de Calvino e outros reformadores estão
prontos a repetir o erro de 1964 e apoiar o autoritarismo com os mesmos
argumentos daquela época: medo de meia dúzia de marxistas que vão destruir a
família. Outras instituições liberais subestimam a ameaça antidemocrática ao
igualar os “extremos” e sugerir que o que aconteceu em 1964 não foi um golpe,
mas só um “movimento”. As instituições liberais brasileiras (os poderes da
República, a imprensa, as igrejas protestantes) devem honrar os valores que as
fundaram e recusar veementemente as soluções autoritárias. Ainda dá tempo de
fazer um grande acordo nacional pela democracia, com Calvino, com Marx, com o
Supremo, com tudo.


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